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quarta-feira, 8 de junho de 2022

Opinião - Criada, A luta de uma mãe pela sobrevivência de Stephanie Land

 






    Stephanie Land sempre quis ser escritora. Conseguiu realizar o seu sonho e escreveu sobre a sua própria experiência de vida. A vida de uma jovem mãe, que cedo na gravidez foi abandonada pelo seu parceiro, um romance de verão. A vida de uma mãe que luta por sobreviver num país onde a desigualdade social é cada vez mais acentuada e onde trabalhar já não é suficiente para viver.

    Vendo-se a braços com um bebé recém-nascido, com os seus planos de estudar na universidade interrompidos, sem qualquer apoio da sua família mais próxima, a maioria a viver longe da sua zona de residência, Stephanie começa a trabalhar numa empresa de empregadas domésticas. Aceita o máximo de casas que consegue, tenta obter todas as ajudas estatais a que tem direito para que possa sobreviver até ao fim do mês e nada faltar à filha. Consegue ir para alguns abrigos, a maioria com más condições de salubridade, tentando sempre melhorar o interior da casa para se adequar a ela e à filha Mia.

    Num retrato duro e bastante emotivo, Stephanie relata como foi conseguindo sobreviver, muito com a ajuda social existente no EUA. Mas mostra-nos como não é de todo fácil ter acesso aos apoios sociais e como os requisitos a ter e a manter durante o tempo em que a ajuda é concedida, são extremamente rigorosos. Fiquei chocada por saber que as pessoas que beneficiam destes apoios são altamente discriminadas e apontadas na rua e nos supermercados, por exemplo, quando ela usa os chamados "food stamps", ou vales de comida que podem ser descontados.

    Gostei bastante de ler esta autobiografia e ficar a conhecer mais da realidade de um dos países mais ricos do mundo, ficar a conhecer aquilo que não se mostra nos filmes e nas séries. Uma realidade que em vários aspectos também existe por cá e certamente em muitos outros países...
Um livro que nos leva a refletir sobre o que é importante e se é num sistema assim que queremos viver. Uma história de vida que mostra como vivem os novos pobres: aqueles que trabalham longas horas e ainda assim não conseguem sobreviver e sair do limiar da pobreza. Mas é também uma história de resiliência, superação e segundas oportunidades.

Há uma série na Netflix inspirada neste livro, como o mesmo nome, que vou querer ver.


Classificação: 4/5


Agradeço à editora o envio de um exemplar.




SINOPSE

Quando Stephanie Land ficou grávida, como resultado de um romance de verão, os seus sonhos de estudar na universidade para se tornar escritora foram bruscamente interrompidos. Mãe solteira, sem estudos, sem dinheiro, sem ajudas que não as dos programas alimentares do governo dos EUA, sobreviveu e cuidou da filha a trabalhar como empregada doméstica para famílias de classes média e alta, saltando de abrigo em abrigo, de desalento em desalento.

Nesta autobiografia, que transforma numa violenta crónica social, Land escreve sobre as desesperadas histórias dos cidadãos estado-unidenses sobrecarregados e sub-remunerados, sempre abaixo de um limiar de pobreza, por mais que trabalhem, por mais que se esforcem.

Com uma escrita íntima e uma visão emotiva, Criada é também o exemplo da superação: os estudos feitos pela autora, à noite, até chegar à licenciatura e à oportunidade para reencontrar o caminho de uma vida própria.
Criada, bestseller do The New York Times, foi o livro que inspirou a série com o mesmo nome, em exibição na Netflix.

CRÍTICAS
«A desigualdade social dos Estados Unidos sob o olhar de uma mãe, um relato da luta de muitas famílias em busca de sobrevivência e um lembrete de que há dignidade em todo o tipo de trabalho.»
Barack Obama


segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Opinião - Nomadland Sobreviver na América no século XXI de Jessica Bruder

 





A autora Jéssica Bruder é jornalista e foi fazer um trabalho de investigação com as comunidades nómadas nos EUA. Inicialmente pretendia fazê-lo por pouco tempo, acabou por fazer trabalho de campo e acompanhar estas pessoas durante dois anos.

O resultado desse trabalho é este livro que nos mostra a realidade nua e crua dos EUA em pleno século XXI. Quando comecei a ler a história destas pessoas, na sua grande maioria, com mais de 60 anos, não quis acreditar que pessoas idosas, doentes, e idade de reforma tivessem de trabalhar para poderem comer. A maioria porque as suas pensões de reforma são miseráveis, não conseguiram manter as suas casas e a única opção que tiveram foi arranjar uma roulotte e ir à procura de trabalho pelo país fora. Trabalho esse que é precário e sazonal, o único que conseguem arranjar e que lhes tira a fome: seja na apanha da beterraba, a serem anfitriões nos parques de roulottes ou a trabalhar na Amazon.

Este livro também aborda as questões laborais no pais mais rico do mundo... E percebe-se como essa riqueza é obtida, à custa dos mais fracos, dos idosos e dos desempregados...
Uma das comunidades que a autora acompanhou acampam sazonalmente todos os anos nos parques de roulottes que existem perto dos armazéns da Amazon, no Nevada. Em torno do armazém há parques onde se pode estacionar a roulotte para os trabalhadores, também da propriedade da empresa... 
A Amazon tem um programa próprio e específico de recrutamento de idosos para trabalharem nos seus armazéns durante alguns meses do ano, quando têm picos de trabalho. Por 10/11 dólares à hora trabalham horas a fio, em turnos noturnos, onde chegam a fazer 20 km a andar dentro do enorme armazém. A Amazon tem dispensadores gratuitos de analgésicos e anti-inflamatórios para os trabalhadores tomarem, porque muitos só com medicação conseguem trabalhar...
E como se preocupam com os seus trabalhadores, até dão dicas de como preparar as roulottes para as temperaturas negativas que irão suportar, claro que com produtos que se pode comprar na Amazon! E como se prepararem fisicamente para começar a trabalhar no armazém e percorrer os vários km diários.
É à custa destas pessoas que conseguem preços mais baixos? É isto que queremos para os nossos filhos, pais e avós?  Isto é, no mínimo, chocante!

Felizmente que há sempre um lado bom nas situações más e a autora conseguiu bem demonstrar a forte comunidade que se estabelece entre estes trabalhadores nómadas. A preocupação uns com os outros, a ajuda que há, as festas e as concentrações que são realizadas em vários pontos do país.

Gostei muito de ter lido este livro e ter tido conhecimento desta triste realidade. Conhecia a existência destas comunidades nómadas mas desconhecia por completo que muitos são pessoas idosas em idade de reforma que não conseguem ter rendimentos para manter uma casa. 
Apesar de a autora se focar na história de Linda, dá-nos a conhecer histórias de outras pessoas, e é impossível não nos emocionarmos com estas histórias comoventes. Muitos pessoas com bons trabalhos e rendimentos acima da média, que por este ou outro motivo ficaram sem nada...

Um livro a não perder!

O filme baseado neste livro, com o mesmo nome, venceu o Óscar para melhor filme, melhor realizador e melhor atriz. Também venceu os Globos de Ouro e melhor filme no BAFTA 2021. Será o meu próximo filme a ver.

Classificação: 4/5


Agradeço à editora o envio de um exemplar deste livro.



SINOPSE

Numa América que parece distópica, mas é real e atual, a jornalista Jessica Bruder, na melhor tradição de um jornalismo imersivo, viveu três anos e vinte e cinco mil quilómetros em acampamentos nómadas, acompanhando empregados low-cost que, sem outra forma de subsistência, desistiram das casas tradicionais para habitar rulotes e furgonetas que transportam, de costa a costa e do México à fronteira com o Canadá, na obsessiva busca de um pagamento quase mendigado.

Bruder, num estilo que oscila subtilmente entre o rigor jornalístico e a emoção literária, contorce de forma dolorosa os tradicionais conceitos de comunidade e família e eterniza uma viagem pela alma dos Estados Unidos do século XXI. São as histórias comoventes, e destemidas, de antigos professores, gerentes, empregados de mesa e de quem mais possa imaginar-se, todos à procura de um sonho americano que tiveram e perderam sem perceber onde nem como.

Nomadland foi a inspiração para o filme de Chloe Zhao que venceu os Óscares de Melhor Filme, Melhor Realização e Melhor Atriz (Frances McDormand).


terça-feira, 16 de novembro de 2021

Opinião - Os Loucos Anos 20 Diário da Lisboa boémia de Paula Gomes Magalhães

 







Lisboa, a nossa capital, é uma cidade que gosto muito de visitar, pois não vivo lá. Tem uma atmosfera que me encanta e que lhe é muito própria. Lisboa é linda!
Vivi em Lisboa enquanto estive a estudar e, sempre que podia, não perdia uma oportunidade de me armar em turista e visitava os seus recantos. Mas é uma cidade onde gosto de ir sem horas e sem horários, sem a pressão dos compromissos do dia-a-dia. 

Este livro faz-nos um relato do que foi a Lisboa dos anos 20, no período do pós Primeira Guerra Mundial onde as pessoas estavam sequiosas de alegria e cheias de esperança num futuro melhor. Um retrato muito interessante de como a cidade evoluía em várias áreas, à semelhança do que se passava no resto da Europa: o surgimento dos carros que eram mais acessíveis e sinal de status social; a moda feminina onde se mostrava cada vez mais a pele, passando pela masculinização da roupa feminina, o aparecimento de roupa desportiva para a prática do ténis ou da equitação, os acessórios como cada vez mais relevância (sapatos, chapéus e maquilhagem); a leitura de magazines e revistas, algumas dedicadas ao publico feminino; o cinema e os teatros também passaram a fazer parte da vida dos Lisboetas, como São Luiz, o Tivoli e o Parque Mayer; e a proliferação dos clubs noturnos e cafés onde os boémios passavam as noites a dançar, a beber e a jogar.

Claro que, apesar dos frequentadores destes espaços serem bastante diferentes, as classes desfavorecidas não tinham acesso a estas diversões por não terem capacidade económica para tais despesas. Mas havia também alguns cabarets e dancings mais acessíveis onde a classe operária se juntava. 

O golpe de maio de 1926 abanou a situação política, social e económica portuguesa, fazendo com que este ambiente boémio tenha-se refreado um pouco. Com o final dos anos 20, o crash da Bolsa de Nova Iorque em 1929 os EUA entraram na chamada grande depressão. Apesar de não ter tido grande impacto em Portugal, com a chegada de António Salazar ao governo, com a pasta das Finanças em 1928, o ambiente de boémia e loucura começou a perde a sua força. Muitos espaços de diversão noturna começaram a fechar com a ditadura devido às regras cada vez mais restritivas que iam-lhes sendo impostas. 

Gostei da forma com a autora expos esta Lisboa que eu pouco conhecia, pois apesar de alguns de nomes me serem familiares, muitos deles eram-me desconhecidos. As ilustrações e fotos da época dão vida à palavras escritas e demonstram bem o cenário lisboeta dos anos 20. Foi fácil sentir-me transportada para muitos dos locais descritos e imaginar o ambiente que se vivia na época. Foi também interessante o nível de pormenor que, em certas situações, a autora chegou para mostrar todo este ambiente dos loucos anos 20 em Lisboa que certamente fazia um grande contraste com o restante país rural. Um livro que demonstra bem a importância que as expressões artísticas e culturais tiveram nesta fase da história da cidade de Lisboa.


Classificação: 3/5

Agradeço à editora o envio de um exemplar deste livro

SINOPSE

O mundo respirava de alívio. Saída da grande guerra, ao ritmo de charlestons e foxtrots, a Europa vivia um período de otimismo, esperança, progresso e de alguma excentricidade. E Portugal não queria ficar de fora destes loucos anos 20.

O país vivia uma profunda crise política, com os governos a sucederem-se a um ritmo de semanas ou até mesmo dias, e uma crise social e económica. Portugal estava à beira da bancarrota, com uma população analfabeta, a viver sem condições, sem trabalho e dinheiro para os bens essenciais. Acentuava-se o fosso entre os ricos e os pobres.

Nas ruas de Lisboa, a sociedade mundana desfilava liberdade e elegância: cortes de cabelo à garçonne, os mais recentes modelos vindos de Paris, automóveis cada vez mais velozes. Assistia a corridas de cavalos no hipódromo, praticava desporto, lanchava nas mais conceituadas pastelarias, frequentava cafés e vivia devotada às últimas novidades do lazer e diversão, como o telefone ou a máquina fotográfica, sem esquecer os eletrodomésticos que agilizavam a vida de todos os dias. De noite, frequentava clubes e cabarets requintados, onde a música e a dança se misturavam com o jogo, o fumo e o álcool até ao romper da madrugada.

A investigadora Paula Gomes Magalhães traça neste livro, amplamente ilustrado, o retrato vivo da mais louca e veloz década de que há memória.

domingo, 25 de julho de 2021

Opinião - As Resistentes de Judy Batalion

 




Em As Resistentes, a autora, neta de sobreviventes polacos do Holocausto, transporta-nos para o período da Segunda Guerra Mundial na Polónia. Conta-nos como várias mulheres tiveram um papel importante neste tempo da nossa história. Infelizmente são histórias pouco conhecidas, pelo que a autora, após vários anos de pesquisa, quis deixar por escrito este relato verdadeiro da participação deste grupo de corajosas mulheres judias que se tornaram uma importante rede de resistência contra os nazis.

Os relatos centram-se em Reina Kukielka, na altura com apenas 17 anos, mas também em tantas outras mulheres que fizeram parte desta rede como Zívia, Frumka ou Chajka. Estas mulheres judias fizeram tudo o que podiam para lutar e resistir contra o nazismo: foram contrabandistas de pessoas, armas e granadas, documentos falsos e vários tipos de informação; foram sabotadoras, espiãs e serviram de correio para os mais variados fins; e até chegaram a combater. Esconderam armas dentro de pães, mensagens em código nos seus cabelos e contribuíram para a construção de bunkers subterrâneos onde vários judeus se refugiavam dos nazis. Fizeram-se passar por polacas cristãs e até resgatavam e sustentavam judeus escondidos.

"Frumka tornou-se obcecada: quem estivesse em condições de lutar não devia esperar que o salvassem! A autodefesa é o único meio de redenção! Morrer de uma morte heroica!"

"Tínhamos de ter uma vontade de ferro. Era isto que repetia a si mesma no comboio, enquanto atravessava florestas a toda a velocidade, passava por inspeções com armas presas no corpo, um sorriso estampado nos lábios."

Muitas destas jovens mulheres tinham um grande sentimento de culpa por terem sido, em alguns casos, as únicas sobreviventes na família. E penso que também por isso tinham este desejo de lutar, pois já não tinham nada a perder, além das suas vidas. 

Apesar de ter havido quem quisesse transmitir a sua experiência, e até houve quem escrevesse as suas histórias, grande parte destas histórias da resistência foram silenciadas, porque não interessavam do ponto de vista político e até porque as achavam inverosímeis e falsas. E por isso nunca foram tidas como relevantes e importantes de divulgar, acabando por, passados 75 anos, a maioria destas mulheres extraordinárias ser desconhecida.

"Censuraram-se os escritos de algumas mulheres para se adequarem a motivações políticas, outros foram tratados com incredulidade acusados de serem uma invenção."

É óbvio que estes tempos foram terríveis, as perdas humanas foram em grande escala, mas, para mim, os sobreviventes tiveram de ter uma força incrível para superar, ou, pelo menos, tentar superar toda esta vivência. O que me perturba sempre que leio sobre estes temas é pensar que no fim da guerra, há um retorno à vida antes da guerra. Mas esse período pode ser tão ou mais duro do que a guerra em si. O "voltar a casa" para a grande maioria, é para quem e para onde? Tantas famílias completamente desfeitas, sobreviventes que nunca conseguiram juntar-se à família, casas e bens materiais que nunca foram recuperados... Não sei onde os sobreviventes foram buscar forças para se reerguer, numa época onde os cuidados mentais eram tão precários e irrelevantes, é isto que mais me perturba e me deixa a pensar.

Foi uma leitura dura, crua e real deste pedaço da nossa história. Não foi um livro que consegui ler de uma assentada, tive de ir alternando com outras leituras mais leves. E não é mais um livro sobre o Holocausto e a 2ª Guerra Mundial. São histórias desconhecidas de mulheres tão jovens que tiveram a coragem e até a audácia de lutar e fazer a diferença. Leitura obrigatória para quem gosta de saber mais sobre este período negro da história mundial.

Classificação: 4/5

Agradeço à editora o envio de um exemplar deste livro.

SINOPSE

Uma das mais importantes histórias até agora não contadas da Segunda Guerra Mundial.

As Resistentes, traz para a luz do dia os feitos extraordinários e corajosos de um grupo de mulheres judias que se tornaram combatentes da Resistência.
Testemunhas do brutal assassínio das suas famílias e da violenta destruição das suas comunidades, um grupo de mulheres judias na Polónia, algumas ainda adolescentes tornaram-se o coração de uma vasta rede de resistência que lutou contra os nazis.

Com coragem, astúcia e nervos de aço, estas raparigas do gueto esconderam revólveres dentro de pães, mensagens codificadas nos seus cabelos, ajudaram a construir sistemas de bunkers subterrâneos e esconderam milhares de judeus em refúgios seguros. Namoriscaram soldados alemães, subornaram-nos com vinho e uísque, usaram a sua aparência para os seduzir e matar. Dinamitaram vias-férreas e sabotaram as linhas de abastecimento alemãs.

Judy Batalion, neta de sobreviventes polacos do Holocausto, leva-nos até 1939 para nos apresentar Renia Kukielka, que arrisca a sua vida a viajar, a pé ou de comboio, pela Polónia ocupada. Batalion segue a vida de Renia e todas estas outras incríveis mulheres que foram contrabandistas, mulheres correio, lutadoras, espiãs, sabotadoras...

Poderoso e inspirador, As Resistentes é um relato verdadeiro e inesquecível acerca da luta pela liberdade, da coragem excecional, da amizade entre mulheres e da sobrevivência perante a adversidade.

quarta-feira, 5 de maio de 2021

Opinião - Furriel Não é Nome de Pai, Catarina Gomes

 






Li há pouco tempo outro livro da jornalista Catarina Gomes e gostei bastante, por isso fui à procura de outros livros e este deixou-me muito curiosa.

É o resultado do trabalho de investigação da jornalista sobre os chamados "Filhos do vento"

Filhos que os militares portugueses tiveram com mulheres africanas na Guerra do Ultramar. Calcula-se que serão bastantes, comparando as estatísticas que existem de outras guerras.

Vamos conhecer esta realidade da qual pouco ou quase nada se fala. De tantos filhos que nunca conheceram os seus pais, portugueses, que serviram na guerra nas ex-colónias.

Conhecemos o testemunho de várias pessoas, hoje com mais de 40 anos, que nos explicam a sua dupla mágoa que sentem: terem sido ostracizados pelos seus por serem mestiços e ignorados pelos seus pais.

Alguns portugueses nunca souberam das crianças, outros souberam mas não puderam ou não quiseram trazê-la consigo. Outros nem sequer as reconheceram como filhos. Muitas mães não quiseram dizer aos pais com receio que as levassem para Portugal...

Um relato muito triste e que me tocou bastante. Uma vida vivida na dúvida, onde a maioria das pessoas tem escassos dados dos seus pais, muitos até dados incorrectos. Um busca inglória pelas suas identidades.

Mas no meio de tanta mágoa e incerteza há também alguns casos felizes de encontros.

Um livro muito bem escrito e interessante sobre um assunto esquecido também pelo Estado Português, que desconhece a dimensão desta realidade.

Classificação: 4/5


sexta-feira, 5 de março de 2021

Opinião - Coisas de Loucos, Catarina Gomes

 




A propósito de uma reportagem sobre o encerramento em 2011 do primeiro hospital psiquiátrico português, o Hospital Miguel Bombarda, em Lisboa, Catarina Gomes encontra uma caixa de cartão.

Curiosa pediu autorização para a abrir. Estava repleta de objectos pertencentes a antigos doentes do hospital, também conhecido por Hospital de Rilhafoles.

A partir destes objectos a autora investigou e tentou descobrir a quem pertenceram. O resultado é este livro que nos conta a história de 8 antigos pacientes do Miguel Bombarda.

Um conjunto de histórias nuas e cruas sobre o que foi ser doente psiquiátrico nos anos 20/30 até aos anos 60/70 do século passado.

Interessante e angustiante saber como as doenças mentais era tratadas, a que sujeitavam os doentes, as condições do hospital...Os eletrochoques, as terapias de banhos gelados e quentes e até a lobotomia eram usados para curar os males da cabeça.

A homossexualidade tratada como doença, acreditando-se que com dois furinhos na cabeça resolveriam o "problema" cujo principal sintoma nos doentes era "efeminacão, cujo sinal mais óbvio era a sua preferência pelos trabalhos das mulheres".

Factos importantes que reti:
🔹só em 1973 a homossexualidade saiu da lista de doenças da Associação Americana de Psiquiatria;
🔹só em 1982 o crime de prática dos chamados "vícios contra a natureza" foi abolido da nossa lei.

Não foi assim há tanto tempo...

Um livro muito bem escrito que conseguiu prender-me a esta realidade que existiu no nosso país.

Histórias duras que me emocionaram de pessoas que foram ostracizadas pelo sistema, pela sociedade e muitas vezes pela própria família.

Obrigada ao Álvaro dos @literacidades e à @harleyaddams por me darem a conhecer este livro!

Classificação: 4/5


SINOPSE

Uma caixa de objectos abandonados no Hospital Psiquiátrico Miguel Bombarda contém as pistas para resgatar do esquecimento a vida de doentes que ao longo de décadas ali permaneceram confinados.
Coisas de Loucos teve origem na descoberta acidental de uma caixa de objectos de antigos doentes do primeiro hospital psiquiátrico português, o Miguel Bombarda.

Catarina Gomes inicia então uma série de investigações para encontrar os «loucos» a quem pertenciam esses objectos abandonados. Nascidos entre o final do século xix e o começo do século xx, muitos foram admitidos em «Rilhafoles», nome original do Bombarda. Os psicofármacos e a terapia ocupacional não tinham ainda sido inventados, e por isso o único «tratamento» que receberam foi o do isolamento.

Mas antes de serem forçadas ao confinamento estas pessoas tiveram família, amores, trabalho, tiveram planos de futuro. São essas suas vidas que Catarina aqui resgata do esquecimento.


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Novidade de Março - O Homem Mais Feliz do Mundo de Eddie Jaku

 




SINOPSE

Eddie Jaku nasceu na Alemanha em 1920 no seio de uma família judaica, sempre carregando com orgulho a sua nacionalidade. No entanto, tudo isso mudou drasticamente em Novembro de 1938, quando foi detido, espancado e levado para um campo de concentração. Depois de sobreviver aos mais desumanos horrores, perder os seus familiares, amigos e o seu país, Eddie fez uma promessa: sorrir todos os dias. Hoje acredita ser o «homem mais feliz do mundo».

Por ocasião do seu 100. º aniversário, Eddie Jaku oferece-nos um testemunho poderoso, desolador e, ao mesmo tempo, derradeiramente optimista de como a felicidade pode ser encontrada até no momento mais sombrio da Humanidade.

CRÍTICAS DE IMPRENSA
«Depois de ler este livro, sinto que fiz um amigo. Uma história bela contada por um homem verdadeiramente surpreendente.»
Daily Telegraph


quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Opinião - As Irmãs de Auschwitz Rena Kornreich Gelissen e Heather Dune Macadam

 





Esta é a história de Rena e Danka, duas irmãs judias que viveram e experienciaram os horrores do Holocausto.
Rena foi uma das jovens mulheres a ir no primeiro transporte de comboio para Auschwitz, o transporte de 998 mulheres judias que ficou marcado na história. Dois dias mais tarde, Rena encontrou a irmã em Auschwitz. Rena, mais velha que Danka, tinha prometido à mãe tomar conta da irmã e regressarem juntas a casa.

A fome e a falta de comida foi o que mais destaquei nesta história. Consegui mesmo sentir-me angustiada com as descrições do pouco que comiam. A procura constante por algo mais que pudessem comer é muito angustiante. Não consigo sequer imaginar como se está dia após dia a pensar em comida, onde encontrar, como conseguir mais um pedaço de pão ou de batata. Senti o cansaço de Danka nesta luta diária e como era fácil desistir de viver...

Gostei muito desta história, é um assunto muito emotivo para mim, não é nada fácil de ler. Mas é a nossa história, ela tem de ser preservada e contada. 
Muito se tem falado sobre o uso excessivo da palavra Auschwitz no título dos livros. Temo que isso faça com que os leitores descartem à partida uma excelente leitura sobre um assunto deveras importante. Quem viveu e passou por aquele inferno não merece que ignoremos o passado. Eu vou continuar a ler sobre a 2ª Guerra Mundial, o Holocausto e Auschwitz porque é um assunto muito mais importante que um título... 

Uma história de sofrimento, dor, resiliência e de amor ao próximo.

Classificação: 5/5

Agradeço à editora o envio de um exemplar.

SINOPSE

No dia 25 de março de 1942 às 8h00 da manhã, Rena Kornreich e 997 outras jovens mulheres foram forçadas a entrar num comboio, em Poprad, na Eslováquia, naquele que ficaria para a história como o primeiro transporte em massa de judeus para Auschwitz. Alguns dias depois, já no campo de concentração, Rena reuniu-se com a sua irmã Danka, dando início a uma história de amor e coragem, que duraria três anos e quarenta e um dias. Nenhuma outra sobrevivente desse primeiro transporte escreveu sobre a sua experiência (poucas sobreviveram). Talvez por isso este livro tenha o destaque merecido entre outros relatos da época, não só pelo longo período de tempo que as duas irmãs permaneceram em Auschwitz, mas também pelo espírito de amor que as fez sobreviver.

Cada dia se tornava uma luta para cumprir a promessa deixada à mãe quando a família fora forçada a separar-se - cuidar da irmã. Do contrabando de pão até à vida no limiar da existência, esta é uma obra arrebatadora sobre as fugazes conexões humanas, que determinaram e tornaram possível a sobrevivência. É uma história sobre os laços entre mães, filhas e irmãs. Uma obra que nos relembra que a humanidade e a esperança são capazes de sobreviver à desumanidade mais extrema.

CRÍTICAS
«Um livro extraordinário repleto de generosidade. O leitor não se esquecerá tão facilmente de Rena e da sua irmã Danka. Inspiradora e comovente, esta é uma obra que deve viver muito além das mulheres maravilhosas que a inspiraram.»
Alex Fuller

«Um testemunho memorável.»
Martin Gilbert

CRÍTICAS DE IMPRENSA
«O sentimento avassalador ao terminar é um triunfo: é possível encontrar abnegação e humanidade entre pessoas que viveram num dos lugares mais horríveis da história.»
Los Angeles Times Book Review

«Uma história incrível contada por uma das sobreviventes de Auschwitz... O número gravado no seu braço era tão baixo que os guardas quando o viam não acreditavam que alguém tivesse resistido tanto tempo.»
Kirkus Reviews


sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Novidade de novembro

 






SINOPSE

Em UMA TERRA PROMETIDA, Barack Obama narra, na primeira pessoa, a história da sua improvável odisseia, de jovem em busca da própria identidade a líder do mundo livre, descrevendo com uma minúcia extraordinariamente pessoal quer a sua educação política quer os marcos do primeiro mandato da sua histórica presidência -um tempo de dramática transformação e turbulência.

Barack Obama convida os leitores a embarcar numa viagem emocionante, desde as suas primeiras aspirações políticas à decisiva vitória na convenção do Iowa até à noite que marcou o ponto de viragem na História, o 4 de novembro de 2008, quando foi eleito o 44.º presidente dos Estados Unidos da América e se tornou o primeiro afro-americano a assumir o cargo mais importante do país.

Refletindo sobre a presidência, Obama explora de forma singular e ponderada o tremendo alcance dos poderes presidenciais, bem como os seus limites, e oferece-nos um ponto de vista privilegiado sobre a dinâmica partidária americana e a diplomacia internacional. Transporta os leitores para o interior da Sala Oval e da Sala de Crise da Casa Branca, para Moscovo, Cairo, Pequim, e leva-os ainda mais longe. Privamos dos seus pensamentos enquanto constitui o seu gabinete, luta contra uma crise financeira global, tira as medidas a Vladimir Putin, supera obstáculos aparentemente inultrapassáveis para assegurar a aprovação da lei de acesso geral a cuidados de saúde (AffordableCareAct), entra em rota de colisão com os generais acerca da estratégia dos EUA para o Afeganistão, lida com a reforma de Wall Street, reage à devastadora crise provocada pela explosão da plataforma petrolífera Deepwater Horizon e dá luz verde à Operação Lança de Neptuno, que culminou com a morte de Osama bin Laden.

UMA TERRA PROMETIDA é uma obra extraordinariamente íntima e introspetiva – a história do compromisso de um homem com a História, da fé de um líder comunitário posto à prova no palco mundial. Obama é franco quando fala sobre o exigente equilíbrio de se candidatar à presidência como americano negro, carregando as expectativas de toda uma geração inspirada por mensagens de “esperança e mudança”, e, ao mesmo tempo, cumprir os desafios morais da tomada de decisões ao mais alto nível. É honesto sobre as forças que lhe fizeram oposição, no seu país e no estrangeiro, é sincero sobre como a vida na Casa Branca afetou a sua mulher e as suas filhas e não tem receio de revelar as suas dúvidas e desilusões. Contudo, nunca vacila na sua convicção de que na grande missão americana, ainda em curso, o progresso é sempre possível.

Este livro, maravilhosamente escrito e poderoso, expressa a convicção de Barack Obama de que a democracia não é uma dadiva caída do céu mas uma conquista alicerçada na empatia e na compreensão mútua, construída em conjunto dia após dia.



domingo, 2 de agosto de 2020

Opinião - O Carteiro de Auschwitz de Joe Rosenblum e David Kohn






Ultimamente tenho lido bastante sobre esta temática da 2ª Guerra Mundial e Holocausto. E a verdade é que não me canso e tenho aprendido em todos elas.

Joe Rosenblum decidiu, perto dos 70 anos de idade, que estava na altura de por escrito tudo aquilo por que passou nos seus anos de juventude e contar o que aconteceu à sua família. E este é o resultado das suas memórias.

Joe era adolescente quando a Alemanha invadiu a Polónia, o seu país. E sendo judeu a vida desafogada que levava sofreu uma volta de 360º. 
Joe teve a sorte e a felicidade de escapar a uma execução em massa que ocorreu na sua cidade mas onde um dos seus irmão foi morto.
Acabou por ser acolhido numa grande quinta onde trabalhou e teve acesso a bastante comida que conseguia partilhar com a sua família que tinha ficado no gueto. Mas no inverno regressava a casa para ajudar o pai no trabalho pois era muito duro fisicamente e o pai estava a ficar esgotado. Porém a falta de comida voltava a ser um grande problema. 

Até que um dia Joe foi apanhado e enviado para o campo de concentração Majdanek. E aqui confesso que as descrições foram bastante cruas, reais e chocantes. Algumas passagens onde o autor descreve a única comida que tinha conseguido encontrar foi um verdadeiro murro no estômago. Como se vive com fome constantemente durante 3 anos? Como se consegue ter vontade de viver e esperança em continuar vivo numa situação destas? Não consigo responder... A preocupação de Joe era sempre conseguir manter-se vivo mais um dia...

Joe é um sobrevivente, tal como ele refere no epílogo, uma mistura de factores permitiu a sua sobrevivência: resiliência, sorte, oportunidade, coragem, muita esperança e pensamento positivo mas também muita bondade. Joe sempre pensou nos outros e sempre ajudou os outros mesmo quando tinha quase nada para dar.

Um testemunho real, muito forte e duro do que este jovem passou, coisas que ninguém consegue sequer imaginar: tortura, fome, doença, assistir à morte do irmão e lidar diariamente com a morte dos outros à sua volta. E tudo aquilo que teve de fazer para se manter vivo mas sempre à espera de ser a sua vez de morrer...

Gostei muito do epílogo, onde Joe nos fala hoje as duas emoções em relação ao seu passado. Como se vive com estas memórias?

Classificação: 5/5

Agradeço à editora o envio de um exemplar.

                                                         
SINOPSE

O Carteiro de Auschwitz é a história verdadeira de um adolescente a quem tentaram roubar a vida e os sonhos. Apanhado no turbilhão do Holocausto, este jovem sobreviveu a uma sequência de dramas tão angustiantes que se torna difícil aceitá-los como factos reais.



Uma confiança inabalável, uma bondade sem limites, um exemplo perfeito de bravura e carácter.

Joe Rosenblum era ainda criança quando assistiu à invasão nazi da sua pequena cidade na Polónia. Foi por pouco que escapou à execução em massa de que foi vítima o irmão. Joe mudou-se primeiro para uma quinta, onde trabalhou, e cujos proprietários o protegeram e o ajudaram a prover o sustento da família durante algum tempo. Depois, viu-se obrigado a refugiar-se junto de ex-prisioneiros russos. a sua inacreditável jornada de sobrevivência começa após ser capturado pelos alemães.

O mensageiro secreto que sobreviveu ao campo de concentração mais terrível da história.

Inteligente, criativo e extremamente pragmático, Joe desafiou a morte, transportou a esperança e deu um exemplo perfeito de humanidade, otimismo e perseverança. com uma bondade sem limites, ele entregou mensagens secretas aos prisioneiros, salvou crianças da câmara de gás e devolveu a luz e a esperança ao coração dos homens num dos períodos mais terríveis da história mundial.

Uma poderosa mensagem de fé e esperança na humanidade.
CRÍTICAS
«Vai comover-se, chorar e torcer por este jovem adolescente, que revela uma capacidade de sobrevivência inigualável. Mesmo reduzido a um animal faminto, supera os nazis no seu próprio jogo. Estamos perante uma saga carregada de emoção.»

Arthur Hiller, realizador de cinema